"As sombras da tarde aumentavam
sob os agitados nuances musicais do blu-ray e se escondiam do mesmo som à
medida que esticavam os braços rumo ao anoitecer, traçadas no asfalto como
vultos de postes assassinados em linhas negras e passando aos poucos pelas
caladas figuras humanas que nas calçadas permaneciam alheias às ruas e, nas
ruas, a elas mesmas. A passageira do veículo, de rosto apoiado sobre o cotovelo
na janela aberta, também se sentia passageira de algo maior e até tentava
concentrar-se em algum pensamento menos abstrato que isso, mas estava entediada
demais e apenas conseguiu abstrair quando seus olhos, graúdos e castanhos,
acompanharam os borrões de asas escuras que corriam pela larga avenida em
competição com o trânsito e ignorando o solo: espelhos negros de aves tão
passageiras pelo ar acima da cortina de fumaça quanto o curioso observar abaixo
delas."
§
(Trecho: 'Todos os Pássaros do Mundo', para não perder a ideia se o papel se perder)
L. S. Moreira

