quarta-feira, agosto 12

Sem par




Paz sem par é ir sem retroceder
aos internos, esquecidos e externos
céus pintados sobre velhos infernos
e aos novos, perdidos, a envelhecer.

Fez-se cinza o senil participar
ao parir tantos e tantos metais,
retorcidos pedaços de animais
eviscerados em fios, sem par...

E sem ir, sem ficar e sem sumir.
Tudo é uma lenta transfiguração,
do pregar de cravos no coração
ao crucificar de almas a vir.

A mecânica é simples como a vida,
no bombear de seiva prazerosa
da sobrecarga cartilaginosa
a mudar e a seguir assim, perdida.
(Lennon Moreira)

segunda-feira, agosto 10

O clarinetista



Eu era muito jovem quando o vi pela primeira vez e logo me encantei por aquela melodia que, de tão alegre e contagiante, fez brilhar meus olhos de criança, enquanto minha curiosidade questionava a seriedade do músico que fitava todos os sorrisos em torno de si sem emitir um. “Fascinante” era a palavra, e tive uma certeza naquele instante: aprenderia a tocar clarineta.

Ele estava lá às sextas-feiras de cada semana com o mesmo silêncio em seu rosto, tocava a mesma canção alegre e, após ela, se ia sem dirigir a palavra a ninguém, deixando-me na ansiedade pela próxima semana, e a próxima, e a próxima.

Assim, adolescente e adulto tornei-me, sempre com o sagrado ritual semanal de vê-lo tocar na praça. Àquela altura da vida, eu também já era um hábil instrumentista, mas aquela mesma melodia, quando por mim tocada, não transmitia a alegre sensação de satisfação e a vontade de sorrir que tinha quando tocada pelo clarinetista.

Não tardou até que o dia mais esperado de minha vida batesse à porta, e alegremente a abri para que pudesse pôr no dedo de minha amada futura esposa a aliança que abençoaria nossas vidas. Abençoaria, pois as bodas nem se haviam iniciado antes que tivessem trágico e adúltero fim. Tudo o que eu era, o que sonhei e o que almejava tornar-me, de uma instante a outro, desmoronou.
Reduzido a um patético estado, arremessado contra a fria face da solidão, uma única lembrança me ocorreu: a canção. E era sexta-feira, àquela hora a melodia provavelmente já estava sendo tocada!

Corri, corri, e lá estava o clarinetista e sua canção que se findava. Mas tudo estava diferente: não apenas o clarinetista sorria ao seu pequeno público, como também a melodia que, não obstante permanecesse a mesma em tantos anos, desta vez soou como uma sonata fúnebre em sintonia com a tristeza de minha alma. O clarinetista então sorriu para mim olhando-me no fundo dos olhos, largou a clarineta no banco da praça e se foi silencioso. Com um tempo, todos ao redor dispersaram-se e lá restei, fitando o clarinete com o lânguido pulsar fleumático de minha desesperança. Foi quando, quase que sem perceber, tomei o instrumento em mãos e, já naquele primeiro sopro triste, aceitei o legado que me foi deixado.

Mais uma sexta-feira. A fina neve cai enquanto algumas crianças brincam na praça. Uma garota para e me observa com pequenos saltos de alegria e encanto ao ouvir minha canção alegre e questionar os olhos sérios e entristecidos do clarinetista à sua frente. “Fascinante”, mais uma vez, era a palavra que descrevia aquele momento que se repetia: ela seria a próxima.

(Lennon Moreira;
2º Ilustração: Portinari, "Clarinetista"; 1960)


domingo, agosto 9

Quero-posso

Havia um quero-quero que vivia sem querer-querer,
tanto não quis-quis, que nem pensava em querer crescer.
Mas num dia ele acordou sem querer
e não querendo, não quis poder
até que não mais podia querer.

Quero-quero voou e não quis descer;
e tanto quis que não podia mais viver.
Quero-quero, mas não posso-posso.
Quero poder querer o que é nosso
p'ra querer subir, mas poder desfazer.

Triste destino o dos que querem sem querer:
Para que nada os incomodem
podem bem menos do que querem
e não querem tudo o que podem.

(Lennon Moreira)

la sombra


Sombras e trevas, te vejo
assim, tão mistificante
quanto do meu sol distante,
mas aqui, no meu meu desejo.
Seja o teu sussurro sorte
que me faz ter e gastar,
também é profundo corte
até onde dói o azar.
É uma roda da fortuna
eterna, esse nós dois;
um agora pr'a depois
deixado, ali na bruma,
num cantinho desaquecido
onde o fogo se consome
Sem saciar sua fome,
mas num gole em ti bebido
para queimar a garganta
e dizer embevecido
ao teu corpo tão querido
Um calor que se agiganta.
Enfim, essas sombras crescem
p'ra te confortar em mim
e te ver perto do fim,
onde os passados se esquecem.

(Lennon Moreira)

sexta-feira, agosto 7

Casa na árvore



Num passado receoso e diligente, havia um homem que desejava uma casa na árvore. "Por quê?" lhe perguntavam; a calma respondia que o céu lhe chamava todo dia e não esperaria muito tempo mais para levá-lo à força, caso não fosse. "Louco", diziam; "pouco", ele se julgava, longe de qualquer chance de chegar às nuvens.
E saiu para procurar a mais alta árvore que pudesse encontrar, a fim de nela trabalhar noite e dia adicionando-lhe madeira, suor e sonho para resultar em altura. Porém, apesar de o bosque ser grande, não viu nenhuma árvore que tivesse feições de lar, muito menos uma copa que merecesse tocar o infinito, foi quando resolveu voltar para aquele lugar que chamava "casa", mas que nunca o acolheu quanto um lar o acolheria. Se "lar é onde o coração está", onde estava o seu?

"Cuidado onde pisa, moço!", e por pouco desviou do montinho de terra do qual um garoto se afastava, mas não a ponto de desproteger. "Mamãe disse que se todo mundo plantasse alguma coisa, toda a gente ia ser mais feliz, por isso eu plantei aí".

Nem uma bomba o atingiria com tamanha potência: jamais encontraria sua casa na árvore enquanto não a criasse desde o berço. Por isso ele também decidiu plantar isso dentro de si, desistindo de chegar ao céu, para chegar ao seu.

E o que o céu fez para arrancá-lo à força da terra? Nada. Graças a sua pequena muda verde de poucos centímetros, seu lar já estava enraizado demais no solo para ser puxado além da vida.

O lar é onde o coração está, e o coração está dentro. "Se todo mundo plantasse alguma coisa" são as palavras que ele jamais esqueceria.


(Lennon Moreira)