terça-feira, novembro 25

Escuta



Seria naquela noite e ele sabia disso, por mais tarde da madrugada tivesse que esperar. Desta vez os preparativos duraram uma semana ou um pouco menos? Não sabia responder ao certo, sua ansiedade e curiosidade simplesmente o consumiam sempre que a vigiava escolher um novo alguém com quem trabalhar, delinear uma nova explosão física e artística detalhada a ponto de mexer com a cabeça dele de todas as maneiras possíveis, mesmo ali, quieto, enquanto aguardava de ouvidos atentos na escuta há tanto tempo plantada no estúdio dela. 

Um gemido abafado e prolongado do outro lado da escuta, dor. Mas também acompanhava um chiado feminino em outro tom, para calar a tentativa do escolhido. Da obra. Ela havia definitivamente começado a proceder em seu templo de sonhos, onde devorava anseios oníricos entorpecidos pelo sofrimento atrelado ao prazer de suas vítimas, daí as arfadas tão bem escutadas, alternadas, trêmulas e desesperadoras de quem se tornava arte pura, para quem se transfigurava na artesã de sensações extremas eternizadas no último momento de gozo e para aquele que escutava a tudo por um aparelho, de seu apartamento do outro lado da rua, deitado no berço de sua própria imaginação compartilhadora de tudo aquilo e transformando cada momento real em suas próprias sensações abstratas e ocultas, dissimuladas, secretas. Ninguém sabia, nem mesmo ela sabia, mas ele sabia. Sabia das investigações que teriam chegado a ela há meses se não encobrisse o caso no departamento com pistas falsas e denúncias forjadas, tão admirado estava com o modus operandi dela, com a vivacidade humana que ela lhe causava desde o instante em que passou a acompanhá-la solitariamente naquela liberdade proibida por todas as leis, sem nem mesmo ter conhecimento do que fazia ao certo. 


Mais movimentos repetidos, acelerados e contínuos, imaginava-a insaciável, sedenta pelo poder de causar mais e mais sensações, e então um outro grito entrecortado: seria agora. Fechava os olhos para visualizá-la já de lábios enleitecidos cortando-o, oferecendo-o, transfigurando-o em algo mais, pleno e maior do que as nossas condições humanas são capazes de sozinhas alcançar. Aquele era o fim, o grand finale, e porém, dentro dele algo nascia: nascia em sua mão, nascia em seu próprio gozo prestes a explodir, no riso audível e apoteótico que ela soltava diante de sua conclusão e na felicidade que ambos atingiram simultaneamente, diferentes e iguais, impressas nas lágrimas que desciam ao descobrir mais uma vez que não estava morto por dentro. Feliz, não estava morto.


Alguém estava, não ele. Não ela.

Não havia urgência para se recompor e deixou-se embalar pelo silêncio do outro lado até o amanhecer. No dia seguinte encobriria o despejo que ela daria ao corpo, ajudaria-a mais uma vez. E ambos estavam vivos por dentro. Distantes, unidos por algo.


L. S. Moreira

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domingo, novembro 23

Medidas


Não há lugar como as ruas e o trânsito, no que se refere a perceber a medida integração humana nos dois níveis que constituem o efêmero e relevante fenômeno denominado vida: pessoal e social.

Talvez seja porque aquele mesmo senhor de cabelos rasos e sorriso fácil que cumprimenta a todos e esbanja cordialidade no dia a dia de um momento a outro transforma-se num voraz competidor por pequenos espaços e imprudências justificáveis com buzinas e gritos esbanjadores de perdigotos enfurecidos, mas é tênue a medida que fazemos daquilo que nós próprios somos capazes de - e permitidos a - fazer quando podemos fazê-lo. Há muito tempo, foi um sofista (ah, os injustiçados e injustiçadores sofistas) chamado Protágoras quem lançou a máxima "O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são", uma maneira reversa de dizer que se todas as medidas e atribuições de valor são subjetivas, logo não há medida inerente em coisa alguma. Cada pedaço daquilo que experimentamos apenas é algo quando queremos que seja, o que é perfeitamente válido quando as subjetividades se chocam nas infinitas intersecções da vida em sociedade e o maior número de determinações de medidas convergentes saem como "vencedoras" e definem a complexa teia de uma atividade aparentemente simples como estar, voltando ao exemplo, no interior de um carro e fazer parte de um fluxo viário. Trata-se do poder pessoal seduzido a não ter medidas vs a soma das medidas subjetivas de todos os que também estão por ali e também detêm seus próprios poderes pessoais seduzidos a não ter medida. Os níveis pessoal e social colidem em uma atividade tão simples - e tão impensada - que fica a sensação de podermos hoje acrescentar muito à frase de Protágoras... se ao menos conhecêssemos nossas próprias medidas.


Sei, também desconheço minhas medidas (no trânsito e na vida, bem como no trânsito da vida), mas essa é uma outra história. 

A medida de nossas histórias está na subjetividade de nossas medidas.


L. S. Moreira


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quinta-feira, novembro 20

Disciplina



Porque escrever é também um ato de liberdade criativa, ainda que na noção de liberdade resida uma entropia displicente e naturalista diante da qual a escrita jamais deve se curvar, ou a liberdade de criação finda por se pulverizar em pequenas partículas de nada tal qual pulveriza-se constantemente a outra liberdade - aquela outra - em um mundo no qual que somos livres para atuar e transformá-lo e, no entanto, não o fazemos porque também somos livres para não fazê-lo.


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domingo, novembro 16

Diary of Dreams - She and Her Darkness




My heart weights minimum a tone
An army's feet pounding on my head
Maybe I'll wake up one day to notice
that all my life was just a dream...

And maybe I'll be better off without you
You left me here with all my thoughts
I'd write a zillion words or walk a million miles
I'd sleep on broken glass just not to lose your smiles

I travel for you around the world
Collecting moments, oh, how absurd
To bring you beauty, to bring you joy
I wish I'd be a little boy

Where is that silence you promised me?
Why is that distance so close to me?
Why is your violence still hurting me?
Why are your eyes avoiding me?

Let me say thank you for all that you have given me.
Thank you for everything you've done.
Forgive me for saying one last thing:
I miss you and I hope you hear this song!

I travel for you around the world
Collecting moments, oh, how absurd
To bring you beauty, to bring you joy
I wish I'd be a little boy

I'm dying for you, can't you see?
I'm lying for you to be free!
I hunger for you, 'cause I can't eat!
I'd vanish for you in defeat!

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Bug do milênio



Esqueceram de fornecer algumas informações a essa geração, chamada "Geração Y" - pouco cabe questionar uma nominação, quando há tanto mais a questionar - e não é preciso ir muito longe para perceber que o recebimento atrasado de algumas dessas dicas que seriam cruciais no início do desenvolvimento de cada um dos afetados por essa condição resulta em um agravante de insatisfação social generalizada nos jovens adultos, especialmente em seus ambientes de trabalho, e um sentimento amargo de frustração no desenvolvimento pessoal o qual é bem mais comum do que parece à primeira vista. Tudo começou naquele dia em que cada um de nós se deu conta de uma verdade absoluta: "eu sou especial".

Esmiuçando um pouco esse marco na vida de cada um dos nascidos a partir de meados da metade da década de 80 - a Geração Y -, é válido considerar não o dia em que nos disseram sermos especiais, mas quando o acreditamos ser, acima de todas as demais coisas. Não é raro o choque daqueles que anos depois alcançam o meio acadêmico e chegam a escutam de seus mestres e instrutores que no nosso universo não existem verdades absolutas. "Como assim? É claro que existem verdades absolutas", um baque terrível para quem já perdeu algumas conquistas históricas, antecedentes ao seu nascimento, e ainda recebeu como herança a liberdade de uma vida onde os sonhos já eram então alcançáveis. E o são, não há o que negar, contudo não mencionaram o suor necessário para alcançá-los de maneira real, tampouco o sangue daqueles que se sacrificaram para que tivéssemos essa oportunidade. Crescendo bitolados e sem esses ponto de referência, as expectativas decolam muito mais alto do que os poucos degraus do início da vida adulta são capazes de alcançar... e bingo! "Mas o que aconteceu? Eu sou especial, por que está acontecendo isso comigo? Eu não mereço isso". 

Bem-vindo aos anos 10.

E agora sim um adendo quanto à nomeação "Geração Y". Para quem lembra, o início do século trouxe consigo a polêmica que precedeu o ápice da era da informação, o Bug do Milênio, nada mais do que um erro de lógica de programação daqueles dois dígitos marcadores de ano que na virada para o ano 00 passariam a contabilizar a data 1900 e não 2000, gerando, por exemplo, juros negativos e boletos bancários emitidos com 100 anos de atraso, uma perspectiva nada segura para os sistemas que precisaram sofrer atualizações a fim de evitar tal consequência. Inclusive alguém na época havia interessantemente nomeado o Bug do Milênio de "Bug Y2K".

Acontece que, no final, foi-se o bug, sobrevivemos. Nós conseguimos! Talvez não. O Bug Y2K depois disso parece ter sido abreviado para um problema mais singular, um bug do milênio mais subjetivo. Enraizado no psicológico de toda uma geração, chamada Y (também não sei quem tirou o 2K da nomenclatura, vai saber...), esse é e será um bug muito mais complicado de lidar. Um que pode muito bem não atrasar nossa sociedade em um século, mas costuma atrasar vidas, individualmente, em muitos meses, por vezes até anos.

Esqueceram de nos alertar sobre esse bug também. Aparentemente, éramos especiais demais para nos preocupar.



L. S. Moreira.




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quarta-feira, novembro 12

Algumas coisas

Algumas coisas


Algumas coisas jamais acontecerão,
E existem pessoas que não estarão lá,
Há chuvas que jamais cairão
e pesadelos que não tendem a parar.

Maior que nós ou acima de nós,
São nuvens que não se podem moldar
E sonhos impossíveis de controlar
Hoje, ontem, antes ou após,
Como um tormento que não se mede,
A esperança, semeadora da paixão,
É o limiar entre a parada que o suspiro precede
E a total ausência de respiração.

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