Seria naquela noite e ele sabia disso, por mais tarde da madrugada tivesse que esperar. Desta vez os preparativos duraram uma semana ou um pouco menos? Não sabia responder ao certo, sua ansiedade e curiosidade simplesmente o consumiam sempre que a vigiava escolher um novo alguém com quem trabalhar, delinear uma nova explosão física e artística detalhada a ponto de mexer com a cabeça dele de todas as maneiras possíveis, mesmo ali, quieto, enquanto aguardava de ouvidos atentos na escuta há tanto tempo plantada no estúdio dela.
Um gemido abafado e prolongado do outro lado da escuta, dor. Mas também acompanhava um chiado feminino em outro tom, para calar a tentativa do escolhido. Da obra. Ela havia definitivamente começado a proceder em seu templo de sonhos, onde devorava anseios oníricos entorpecidos pelo sofrimento atrelado ao prazer de suas vítimas, daí as arfadas tão bem escutadas, alternadas, trêmulas e desesperadoras de quem se tornava arte pura, para quem se transfigurava na artesã de sensações extremas eternizadas no último momento de gozo e para aquele que escutava a tudo por um aparelho, de seu apartamento do outro lado da rua, deitado no berço de sua própria imaginação compartilhadora de tudo aquilo e transformando cada momento real em suas próprias sensações abstratas e ocultas, dissimuladas, secretas. Ninguém sabia, nem mesmo ela sabia, mas ele sabia. Sabia das investigações que teriam chegado a ela há meses se não encobrisse o caso no departamento com pistas falsas e denúncias forjadas, tão admirado estava com o modus operandi dela, com a vivacidade humana que ela lhe causava desde o instante em que passou a acompanhá-la solitariamente naquela liberdade proibida por todas as leis, sem nem mesmo ter conhecimento do que fazia ao certo.
Mais movimentos repetidos, acelerados e contínuos, imaginava-a insaciável, sedenta pelo poder de causar mais e mais sensações, e então um outro grito entrecortado: seria agora. Fechava os olhos para visualizá-la já de lábios enleitecidos cortando-o, oferecendo-o, transfigurando-o em algo mais, pleno e maior do que as nossas condições humanas são capazes de sozinhas alcançar. Aquele era o fim, o grand finale, e porém, dentro dele algo nascia: nascia em sua mão, nascia em seu próprio gozo prestes a explodir, no riso audível e apoteótico que ela soltava diante de sua conclusão e na felicidade que ambos atingiram simultaneamente, diferentes e iguais, impressas nas lágrimas que desciam ao descobrir mais uma vez que não estava morto por dentro. Feliz, não estava morto.
Alguém estava, não ele. Não ela.
Não havia urgência para se recompor e deixou-se embalar pelo silêncio do outro lado até o amanhecer. No dia seguinte encobriria o despejo que ela daria ao corpo, ajudaria-a mais uma vez. E ambos estavam vivos por dentro. Distantes, unidos por algo.
L. S. Moreira
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