Somente no meio da noite vislumbro estar com mais um daqueles ódios tranquilos, dos que aumentam as horas de sono para dezesseis por dia e planejam a todo momento xingar mesmo as pessoas mais queridas, não o fazendo porque o conserto é sempre ainda mais odioso - e trabalhoso - que a quebra.
Passo um tempo até começar a manhã de verdade. Amarro os cabelos, ajeito a cara, disfarço as olheiras com um pouco de preto e cá estou novamente, refratando todo elogio mentiroso porquanto não ser mais capaz de crer nas ilusões das boas aventuranças que, ditas, parecem motivacionais como um livro do Augusto Cury aos pés do pendurado pelo teto. Cansada de quase tudo, é quase irritante saber que a pior das raivas é a que não tem alvo, que se expande até encobrir toda a zona de conforto, transfigura-se em sombra que engolfa todo o conhecido e até mesmo parte do vir-a-conhecer. Cresce a raiva por não engolir ou digerir essa falta que algo me faz, e raiva por não saber em que diabos reside esse algo. Desanimada, trêmula, tão repleta de pesadelos nítidos quanto de sonhos opacos... e tranquila, o que é pior. Por que todos parecem tão bem? Todos são tão bons em mentir desse jeito? Paro um pouco para pensar depois de revidar um oco "tudo bem" para me livrar logo da conversa, e talvez também se façam essas perguntas sobre mim. Somos todos mais iguais do que eu gostaria, essa geração falhou ao dizer a cada um o quanto era especial, o quanto cresceria especial e seria bem recebido pela vida. Fui talhada para realizações que sempre estiveram acima de mim e a única coisa que consigo sentir diante do fado é um pouco de sono e um ódio difuso. Sempre há o amanhã para vir pior.
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