quarta-feira, março 25

VII. Tranquila


Somente no meio da noite vislumbro estar com mais um daqueles ódios tranquilos, dos que aumentam as horas de sono para dezesseis por dia e planejam a todo momento xingar mesmo as pessoas mais queridas, não o fazendo porque o conserto é sempre ainda mais odioso - e trabalhoso - que a quebra. 

Passo um tempo até começar a manhã de verdade. Amarro os cabelos, ajeito a cara, disfarço as olheiras com um pouco de preto e cá estou novamente, refratando todo elogio mentiroso porquanto não ser mais capaz de crer nas ilusões das boas aventuranças que, ditas, parecem motivacionais como um livro do Augusto Cury aos pés do pendurado pelo teto. Cansada de quase tudo, é quase irritante saber que a pior das raivas é a que não tem alvo, que se expande até encobrir toda a zona de conforto, transfigura-se em sombra que engolfa todo o conhecido e até mesmo parte do vir-a-conhecer. Cresce a raiva por não engolir ou digerir essa falta que algo me faz, e raiva por não saber em que diabos reside esse algo. Desanimada, trêmula, tão repleta de pesadelos nítidos quanto de sonhos opacos... e tranquila, o que é pior. Por que todos parecem tão bem? Todos são tão bons em mentir desse jeito? Paro um pouco para pensar depois de revidar um oco "tudo bem" para me livrar logo da conversa, e talvez também se façam essas perguntas sobre mim. Somos todos mais iguais do que eu gostaria, essa geração falhou ao dizer a cada um o quanto era especial, o quanto cresceria especial e seria bem recebido pela vida. Fui talhada para realizações que sempre estiveram acima de mim e a única coisa que consigo sentir diante do fado é um pouco de sono e um ódio difuso. Sempre há o amanhã para vir pior.


§

terça-feira, março 24

VI. Tudo


A ideia era reunir todas as vontades refreadas pelo bom senso e deixar para um só dia, sabe? Os bons dias, os abraços imprevisíveis e as comemorações em datas importantes, simbólicas ou não. Os presentes, não mais dados mecanicamente, exsudariam aos borbotões muito do que as palavras antes mal conseguiam dizer com a ênfase que deveriam e, quando diziam, não demonstravam posse da noção de sua própria relevância. 

Ora, se as coisas que libertam são também as que sufocam quando cativam, talvez seja preciso um tempo em cativeiro para começar a entender que o que não é dito por vezes é mais intenso. É tudo.


§

segunda-feira, março 23

V. Algo


Há algo maior do que o passar de dias na busca de causas externas, ou pelo menos deve haver. Busca-se conforto, salário ao fim do mês, lar, transporte pessoal com menor dispêndio de tempo, busca-se hobbies, pequenos vícios e alguém para acreditar nas suas palavras, compartilhar os seus hobbies e suportar seus pequenos vícios. Busca-se tanto, e tanto é tão pouco. Algo maior poderia ser Deus, e há quem também o busque, encontrando de maneira similar outras respostas externas para perguntas que se fingem saciadas. E se não houver? Por que não parar de fingir?

Pode o mundo não residir apenas sob os pés, pode as respostas não existirem senão no plano abstrato dos que se resignam ao que almejam, pode os deuses se lixarem para o evento mais importante da sua vida tal qual o eixo de rotação do planeta pouco mudará mesmo que nasçam perfeitamente saudáveis os gêmeos que você quis a vida inteira. Pode o que se quer ser tão insignificante quanto o que se tem, e pode o que eu sou ser tão ínfimo quanto o que o maior dos líderes fez pela maior das civilizações desse planeta. Assim como pode algo supremo como o universo ser absolutamente insignificante diante do que quero.

Pode haver um significado que explique tudo e pode essa explicação, ainda assim, ser insignificante.



§


sábado, março 21

Song for a red rose [Girls Under Glass - Deliverance]




"Love is like a red rose
Beautiful she shines
Until you start to own
She begins to die alone

Love becomes a dead rose
Beauty without substance
Living in a wrong world
Waiting for deliverance
Deliverance"


§

terça-feira, março 17

"Now, I am become Death, the destroyer of worlds"



'We knew the world would not be the same. A few people laughed, a few people cried, most people were silent. I remembered the line from the Hindu scripture, the Bhagavad-Gita. Vishnu is trying to persuade the Prince that he should do his duty and to impress him takes on his multi-armed form and says, "Now, I am become Death, the destroyer of worlds." I suppose we all thought that one way or another.' 
(Oppenheimer, J. Robert) 

§


sábado, março 14

IV. Falhamos


Poucas são palavras que consigam descrever aquele momento em que o chão já não conteve os pés e o corpo não bastou para a mente. Sem dúvida existe uma fissura entre opostos perdidos no tempo em que nos conhecemos. Falhamos, falhamos miseravelmente em ter os pés no chão. Falhamos em construir cidades autossuficientes e sociedades insustentáveis, falhamos ao criar um deus justo para patrocinar uma espécie injusta. E falhamos, você e eu, forjamos um amor perfeito para dois moribundos.


§


quinta-feira, março 12

III. Calma


Antes de ficar quase tonta por tantas mentiras que ouvia, tentei parar e respirar fundo, sabe? Quem sabe eu conseguia recordar de alguma coisa boa que me desviasse a raiva daquela besteira toda, algo como quando sinto a areia molhada à beira-mar sob meus pés e entre meus dedos ou aquele up que me acomete quando o dia trinta cai em um domingo e no dia vinte e oito o pagamento já está na conta.  Algo assim. Juro que fechei os olhos na tentativa de me esforçar, mas sei lá. Ninguém é uma máquina - e se somos, não somos lá uma muito estável -, não dá para calcular como e quando fazer tudo como deveria ser feito. Ah, quer saber? Não me arrependo nem um pouco. Não sei se faria de novo, porém essa coisa de arrependimento não é para mim. A única coisa com o que poderiam me chantagear por silêncio e calma seria o quê, reprimenda social? Infelizmente já somos julgadas a todo momento pelo que comemos e pelo que vestimos, agora vão nos julgar até pelo que sentimos? E ainda querem que eu respire fundo e conte até dez? Faça-me o favor.


§



quarta-feira, março 11

II. Forasteiro


Bem que ele subestimou, contudo sempre soube haver algo terrível em se entregar ao sono, uma malícia explícita na malevolência das possessivas crias do falecido Morfeu. Mas quem sabe? Se o que há quando se acorda já não tem relevância e o abismo pungente no fígado apenas corrói?

Dormir afaga a ausência da dor, é a mais acessível das drogas, não a menos destruidora. Existe algo incômodo quando se permuta um dia desperto por dez em sonho, e é aperceber-se mais forasteiro ao acordar aqui dentro do que lá fora, livre, em sono.

E tudo daqui se apaga como lembranças fracas. Como ele antes esquecia os sonhos, esquece de si.


§

terça-feira, março 10

I. Turvo



Não escrevo em primeira pessoa desde que era Marco e, antes daquele marco, desde que também fui alguém cujo nome hoje mal me recordo. A memória tem dessas armadilhas. Se não traz muito a se comemorar, ostenta tanto menos a apagar, além de que apaga pouco do que deveria e muito do que poderia trazer algum sentido quando a soma de tudo parece não fazer nenhum.

Ponderações à parte, já não morro como antes pensava. E quem dera se assim o fosse!
Desapareço pouco a pouco em meu próprio afogamento tal qual um buraco cresce a cada porção de terra que despenca de suas bordas para o estômago. Esvaeço, oxalá em direção à morte, à paciente derradeira que a todos espera como a impiedosa contagem regressiva para o inexorável, mas também uma medida bondosa e progressiva para correr ao máximo e o melhor possível antes de ser alcançado por ela. Não, não, é isso, e tampouco tal sensação traz o amargo gosto de fim dos que desfalecem.

Nas mãos nuas há apenas uma perda de gosto, um estar oco. "Vini, vidi, vici", pode ter bradado Júlio César, o que não o impediu de também se perder no esquecimento após ter vencido, vivido e vindo. E hoje não é lembrado? Suas palavras e seu império mais que ele próprio, decerto. Lembrar de algo que já se foi, dessa forma, não difere em nada desse meu existir que se turva a cada dia. Assim como o tato vazio do toque na pele de quem se amou jamais se equipara a como era o mesmo toque, antes, quando se amava. 
Esse sou eu, turvo, jamais equiparado a quem fui, e por tão pouco tempo.

Eis porque não escrevia.


§