Não há lugar como as ruas e o trânsito, no que se refere a perceber a medida integração humana nos dois níveis que constituem o efêmero e relevante fenômeno denominado vida: pessoal e social.
Talvez seja porque aquele mesmo senhor de cabelos rasos e sorriso fácil que cumprimenta a todos e esbanja cordialidade no dia a dia de um momento a outro transforma-se num voraz competidor por pequenos espaços e imprudências justificáveis com buzinas e gritos esbanjadores de perdigotos enfurecidos, mas é tênue a medida que fazemos daquilo que nós próprios somos capazes de - e permitidos a - fazer quando podemos fazê-lo. Há muito tempo, foi um sofista (ah, os injustiçados e injustiçadores sofistas) chamado Protágoras quem lançou a máxima "O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são", uma maneira reversa de dizer que se todas as medidas e atribuições de valor são subjetivas, logo não há medida inerente em coisa alguma. Cada pedaço daquilo que experimentamos apenas é algo quando queremos que seja, o que é perfeitamente válido quando as subjetividades se chocam nas infinitas intersecções da vida em sociedade e o maior número de determinações de medidas convergentes saem como "vencedoras" e definem a complexa teia de uma atividade aparentemente simples como estar, voltando ao exemplo, no interior de um carro e fazer parte de um fluxo viário. Trata-se do poder pessoal seduzido a não ter medidas vs a soma das medidas subjetivas de todos os que também estão por ali e também detêm seus próprios poderes pessoais seduzidos a não ter medida. Os níveis pessoal e social colidem em uma atividade tão simples - e tão impensada - que fica a sensação de podermos hoje acrescentar muito à frase de Protágoras... se ao menos conhecêssemos nossas próprias medidas.
Sei, também desconheço minhas medidas (no trânsito e na vida, bem como no trânsito da vida), mas essa é uma outra história.
A medida de nossas histórias está na subjetividade de nossas medidas.
L. S. Moreira
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