Esqueceram de fornecer algumas informações a essa geração, chamada "Geração Y" - pouco cabe questionar uma nominação, quando há tanto mais a questionar - e não é preciso ir muito longe para perceber que o recebimento atrasado de algumas dessas dicas que seriam cruciais no início do desenvolvimento de cada um dos afetados por essa condição resulta em um agravante de insatisfação social generalizada nos jovens adultos, especialmente em seus ambientes de trabalho, e um sentimento amargo de frustração no desenvolvimento pessoal o qual é bem mais comum do que parece à primeira vista. Tudo começou naquele dia em que cada um de nós se deu conta de uma verdade absoluta: "eu sou especial".
Esmiuçando um pouco esse marco na vida de cada um dos nascidos a partir de meados da metade da década de 80 - a Geração Y -, é válido considerar não o dia em que nos disseram sermos especiais, mas quando o acreditamos ser, acima de todas as demais coisas. Não é raro o choque daqueles que anos depois alcançam o meio acadêmico e chegam a escutam de seus mestres e instrutores que no nosso universo não existem verdades absolutas. "Como assim? É claro que existem verdades absolutas", um baque terrível para quem já perdeu algumas conquistas históricas, antecedentes ao seu nascimento, e ainda recebeu como herança a liberdade de uma vida onde os sonhos já eram então alcançáveis. E o são, não há o que negar, contudo não mencionaram o suor necessário para alcançá-los de maneira real, tampouco o sangue daqueles que se sacrificaram para que tivéssemos essa oportunidade. Crescendo bitolados e sem esses ponto de referência, as expectativas decolam muito mais alto do que os poucos degraus do início da vida adulta são capazes de alcançar... e bingo! "Mas o que aconteceu? Eu sou especial, por que está acontecendo isso comigo? Eu não mereço isso".
Bem-vindo aos anos 10.
E agora sim um adendo quanto à nomeação "Geração Y". Para quem lembra, o início do século trouxe consigo a polêmica que precedeu o ápice da era da informação, o Bug do Milênio, nada mais do que um erro de lógica de programação daqueles dois dígitos marcadores de ano que na virada para o ano 00 passariam a contabilizar a data 1900 e não 2000, gerando, por exemplo, juros negativos e boletos bancários emitidos com 100 anos de atraso, uma perspectiva nada segura para os sistemas que precisaram sofrer atualizações a fim de evitar tal consequência. Inclusive alguém na época havia interessantemente nomeado o Bug do Milênio de "Bug Y2K".
Acontece que, no final, foi-se o bug, sobrevivemos. Nós conseguimos! Talvez não. O Bug Y2K depois disso parece ter sido abreviado para um problema mais singular, um bug do milênio mais subjetivo. Enraizado no psicológico de toda uma geração, chamada Y (também não sei quem tirou o 2K da nomenclatura, vai saber...), esse é e será um bug muito mais complicado de lidar. Um que pode muito bem não atrasar nossa sociedade em um século, mas costuma atrasar vidas, individualmente, em muitos meses, por vezes até anos.
Esqueceram de nos alertar sobre esse bug também. Aparentemente, éramos especiais demais para nos preocupar.
L. S. Moreira.
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