sábado, janeiro 10

"Ainda não" (um conto de Elisabeth)



Já deve ser manhã depois do que pareceu uma eternidade de horas, e tudo o que meus olhos ainda veem é a escuridão da infindável noite passada, o ápice de toda a atenção que jamais dei a todos os alertas que tive, aos conselhos de prudência ignorados e às admoestações de juízo postergadas, sempre responsabilizadas em algum lugar no futuro - agora impossível, inalcançável. Mal acredito ser capaz de pensar tudo assim, friamente distante... e talvez seja isso mesmo. Minha mente divaga cada vez mais distante e por isso vê o corpo moribundo com uma calma que jamais teria se nele ainda estivesse. Ou estou?

Meu braço... o formigamento parece passar aos poucos, mas ainda não consigo olhar de novo para o que restou dele. O frio empapado de sangue é uma estaca de gelo trincada no osso insuportavelmente indolor, batendo nele sob anestesia dos nervos sobrecarregados assim como o vento cortante me fazia lembrar de ainda estra vivo, não inteiro, porém vivo.

"Ainda", ela ressurge e parece responder meu pensamento não dito. Assustado, procuro por ela na escuridão embaçada do meu sonho. Não, ela não estava mais aqui até agora há pouco, quando foi que voltei a dormir? Não posso dormir... o frio... se eu dormir, posso jamais acordar, mas enquanto estiver vivo... Não sei, o medo é a pior coisa quando até mesmo a dor já me abandonou. Aquela mulher, ela me atraiu para fora da boate, chupou meu pau como uma puta enlouquecida e depois de tanta coisa que mal consigo lembrar em detalhes, cá estou, pernas paralisadas, olhos envenenados pela luz negra das palavras dela e voz sufocada na garganta sem ao menos poder perguntar se havia mais alguém por perto para ajudar. Ouvi-a assim, no meu silêncio tumulizado de mosca em teia de aranha, segredar sua existência como a de um monstro amaldiçoado, cuja aparência bela e jovem se esvai a cada nova noite, irremediavelmente condenada a apodrecer depois de lhe tirarem algo... sua essência, algo assim. Não sei, não sei... e não me importo, eu vou morrer. Não sinto mais nada. Eu só quero morrer, prefiro morrer a viver mutilado desse jeito... ou ter que sonhar novamente e lembrar daquela besta apodrecida com minha carne mastigada entre os dentes... Eu só quero morrer, eu só quero...

"Ainda não".


§



L. S. Moreira

(E como é satisfatório inventar trechos bobos randômicos do universo de EdD não pertencentes aos livros...)






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