domingo, fevereiro 22

Análise de performance interpretativa. Videoclip: Sia - Elastic Heart, feat. Shia LaBeouf & Maddie Ziegler





"There's something stunning in this video, I don't know exactly what it is."

Curioso e assolado por essa mesma sensação, após observar o quanto ela também se revelou comum entre fãs, admiradores e na internet em geral (exceto pelos hipersexualizadores que insistem em acusar pedofilia em caixa alta aos 4 ventos), dei uma conferida em busca do significado da mensagem e da performance em si, bem como do vídeo em sua totalidade - enquanto trilogia com Chandelier e o próximo que concluirá -, conciliando a intenção descrita pela própria Sia com interpretações de observadores do vídeo e o meu próprio botão de repeat.

Para início, Sia confirmou que a gaiola simbolizava sua própria mente, que agora abriga aquela Sia de comportamento agressivo e todos os vícios e manias relacionados ao transtorno bipolar que teve no passado (Maddie, como em Chandelier, representa essa parte de Sia), mas agora compartilhando espaço na mesma gaiola com a recém-nascida e ainda fraca parte adulta da sua mente, em desenvolvimento e, apesar de mais velha que a primeira, subjugado a ela. Embora essa representação esteja voltada para experiências pessoais de Sia, também se aplicam a todo aquele que sofreu/sofre de algum transtorno e precisou/precisa lidar com a violência da transição ante as responsabilidades da vida adulta, com o risco da própria sanidade e zona de conforto em jogo.

O primeiro momento evidencia a diferença de forças. 'Ela' é intimidadora e feral e se move como um predador que domina o espaço da gaiola, range os dentes e o ataca; 'ele' é defensivo e assustado (o movimento do coração batendo rápido), e tenta se afastar depois da coragem de se aproximar em um momento e ser repelido. Um momento que marca desta etapa é quando 'ela' salta nas costas dele e fecha-lhe os olhos: ela é quem o impede de ver o mundo.

Então algo acontece pela primeira vez: ele a repele e defende seu chute, é Sia reconhecendo pela primeira vez o lado destrutivo de sua mente transtornada e reagindo proativamente. Ele está com sua força em desenvolvimento, e descobre isso usando-a para afastar-se até um ponto onde ela não consegue alcançá-lo: o topo da gaiola. 

Ela revela confusão a princípio (os giros), mas sem tê-lo para enfrentar, logo cai ao chão e parece enfraquecer. É a primeira vez em que sua maturidade saudável consegue acalmar e tomar certo controle sobre o transtorno.

E então ele desce, achando que consegue se aproximar dela sem machucá-la (o cuidado em se equilibrar ao descer) ou ser machucado por ela, deita como ela e toca em seu coração, ela reage defensivamente e ele lhe estende a mão. Seria esse o momento de reconciliação entre os opostos, mas ela o engana, morde-o e retoma a agressividade. Todos os que passaram ou passam por transição similar sabem muito bem disso: não é nada fácil.

Mas agora ele tem sua força recém-descoberta e usa-a para mostrar que não tem mais medo dela, ataca-a (protegendo a mão machucada, possui instinto de autoproteção), e no combate ela desfere o tapa que o afasta e arregala os olhos (gosto dessa expressão na cena, em particular). É essa surpresa por vê-lo forte que a faz correr da gaiola. Deixa a mente para ele.

As barras não são intransponíveis a ele, no ângulo certo ele poderia sair e enfrentá-la, mas uma gaiola vazia poderia simbolizar a insanidade completa. Alguém precisa prevalecer na gaiola, e ele não possui ainda instinto de dominância, tanto que ao estar sozinho não comemora seu domínio, mas surpreendentemente se sente só e enfraquece mais uma vez, diante dela que o provoca. Assim como ela precisava dele e também enfraqueceu quando ele estava no alto da gaiola: eles são simbiontes, apesar de opostos. Um precisa do outro, a despeito de todo o conflito, ambos são Sia.

Então, no que é o momento mais belo do vídeo, ela ao vê-lo desamparado e sozinho retorna à gaiola para abordá-lo pela primeira vez de modo não agressivo, como parte dele. A simbiose antes fundamentada em confronto, tem nela sobre os ombros dele um primeiro momento de equilíbrio. Ele ao se levantar possui a experiência de vida dela sobre as costas, mas está em sem próprio domínio e enxerga tudo o que está ao seu redor pela primeira vez. A expressão e emoção de Shia (o ator) maravilhado ao conhecer o mundo sob essa perspectiva pela primeira vez é incrível.

Para comprovar que sua contraparte agora é forte, ela bate mais três vezes em sua testa, que já não enfraquece nem foge. Esse reconhecimento de resistência é feito em três etapas, quando ela puxa suas orelhas, olhos e boca: agora ele pode ouvir, pode ver e possui uma voz. Ela já não conseguiria dominá-lo como costumava e há a sua rendição (na figura do sopro).

Na saída da mente que está sob novo domínio, ela tenta levá-lo consigo (porque sabe que sem ele também enfraquecerá), mas ele não pode ir, ele deve ficar na gaiola. Em uma mente que está mudando para encarar a vida, já não há mais espaço para 'ela', porém, seu lado em amadurecimento jamais esteve sem a zona de conforto gerada pelo transtorno, e embora 'ela' fosse destrutiva, também era forte e familiar. Ela tenta em vão levá-lo, desesperada por saber que sozinha também perderá força, e ele tenta em vão puxá-la para perto de si, porque também está resignado à ideia de que sozinho estará desamparado do dinamismo que a simbiose dos dois lhes proporcionava, que estará fadado a encontrar - sozinho - uma nova fonte de força e inspiração. 

A separação nessa transição é extremamente dolorosa. Assim como estar sem sua antiga "parte" pode ser considerado um novo começo, é também uma enorme perda.

E já que se trata de uma trilogia, espero o que virá pela frente. Enquanto isso, repeat.


§


L. S. Moreira


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