segunda-feira, agosto 10

O clarinetista



Eu era muito jovem quando o vi pela primeira vez e logo me encantei por aquela melodia que, de tão alegre e contagiante, fez brilhar meus olhos de criança, enquanto minha curiosidade questionava a seriedade do músico que fitava todos os sorrisos em torno de si sem emitir um. “Fascinante” era a palavra, e tive uma certeza naquele instante: aprenderia a tocar clarineta.

Ele estava lá às sextas-feiras de cada semana com o mesmo silêncio em seu rosto, tocava a mesma canção alegre e, após ela, se ia sem dirigir a palavra a ninguém, deixando-me na ansiedade pela próxima semana, e a próxima, e a próxima.

Assim, adolescente e adulto tornei-me, sempre com o sagrado ritual semanal de vê-lo tocar na praça. Àquela altura da vida, eu também já era um hábil instrumentista, mas aquela mesma melodia, quando por mim tocada, não transmitia a alegre sensação de satisfação e a vontade de sorrir que tinha quando tocada pelo clarinetista.

Não tardou até que o dia mais esperado de minha vida batesse à porta, e alegremente a abri para que pudesse pôr no dedo de minha amada futura esposa a aliança que abençoaria nossas vidas. Abençoaria, pois as bodas nem se haviam iniciado antes que tivessem trágico e adúltero fim. Tudo o que eu era, o que sonhei e o que almejava tornar-me, de uma instante a outro, desmoronou.
Reduzido a um patético estado, arremessado contra a fria face da solidão, uma única lembrança me ocorreu: a canção. E era sexta-feira, àquela hora a melodia provavelmente já estava sendo tocada!

Corri, corri, e lá estava o clarinetista e sua canção que se findava. Mas tudo estava diferente: não apenas o clarinetista sorria ao seu pequeno público, como também a melodia que, não obstante permanecesse a mesma em tantos anos, desta vez soou como uma sonata fúnebre em sintonia com a tristeza de minha alma. O clarinetista então sorriu para mim olhando-me no fundo dos olhos, largou a clarineta no banco da praça e se foi silencioso. Com um tempo, todos ao redor dispersaram-se e lá restei, fitando o clarinete com o lânguido pulsar fleumático de minha desesperança. Foi quando, quase que sem perceber, tomei o instrumento em mãos e, já naquele primeiro sopro triste, aceitei o legado que me foi deixado.

Mais uma sexta-feira. A fina neve cai enquanto algumas crianças brincam na praça. Uma garota para e me observa com pequenos saltos de alegria e encanto ao ouvir minha canção alegre e questionar os olhos sérios e entristecidos do clarinetista à sua frente. “Fascinante”, mais uma vez, era a palavra que descrevia aquele momento que se repetia: ela seria a próxima.

(Lennon Moreira;
2º Ilustração: Portinari, "Clarinetista"; 1960)


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