terça-feira, março 10

I. Turvo



Não escrevo em primeira pessoa desde que era Marco e, antes daquele marco, desde que também fui alguém cujo nome hoje mal me recordo. A memória tem dessas armadilhas. Se não traz muito a se comemorar, ostenta tanto menos a apagar, além de que apaga pouco do que deveria e muito do que poderia trazer algum sentido quando a soma de tudo parece não fazer nenhum.

Ponderações à parte, já não morro como antes pensava. E quem dera se assim o fosse!
Desapareço pouco a pouco em meu próprio afogamento tal qual um buraco cresce a cada porção de terra que despenca de suas bordas para o estômago. Esvaeço, oxalá em direção à morte, à paciente derradeira que a todos espera como a impiedosa contagem regressiva para o inexorável, mas também uma medida bondosa e progressiva para correr ao máximo e o melhor possível antes de ser alcançado por ela. Não, não, é isso, e tampouco tal sensação traz o amargo gosto de fim dos que desfalecem.

Nas mãos nuas há apenas uma perda de gosto, um estar oco. "Vini, vidi, vici", pode ter bradado Júlio César, o que não o impediu de também se perder no esquecimento após ter vencido, vivido e vindo. E hoje não é lembrado? Suas palavras e seu império mais que ele próprio, decerto. Lembrar de algo que já se foi, dessa forma, não difere em nada desse meu existir que se turva a cada dia. Assim como o tato vazio do toque na pele de quem se amou jamais se equipara a como era o mesmo toque, antes, quando se amava. 
Esse sou eu, turvo, jamais equiparado a quem fui, e por tão pouco tempo.

Eis porque não escrevia.


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