quarta-feira, março 11

II. Forasteiro


Bem que ele subestimou, contudo sempre soube haver algo terrível em se entregar ao sono, uma malícia explícita na malevolência das possessivas crias do falecido Morfeu. Mas quem sabe? Se o que há quando se acorda já não tem relevância e o abismo pungente no fígado apenas corrói?

Dormir afaga a ausência da dor, é a mais acessível das drogas, não a menos destruidora. Existe algo incômodo quando se permuta um dia desperto por dez em sonho, e é aperceber-se mais forasteiro ao acordar aqui dentro do que lá fora, livre, em sono.

E tudo daqui se apaga como lembranças fracas. Como ele antes esquecia os sonhos, esquece de si.


§

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentar também é [com]partilhar, e quem está na contramão tem a vantagem de olhar seus vizinhos nos olhos.